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A raça e a história

O que é o Timbrado Espanhol?

Um canário de canto, criado na Espanha e selecionado pela voz há séculos. Conheça a raça, como ela canta e a sua história completa, do canário selvagem até hoje.

Um canário de canto

O Timbrado Espanhol é um canário de canto. O que define a raça é a voz, não a cor nem a forma: não existe padrão de cor para premiar.

Quem canta é o macho. Ele perde o canto no fim da temporada de cria e o recupera na seguinte, às vezes com um repertório diferente. Numa só sequência, um canário pode cantar mais de um minuto seguido, com centenas de sílabas.

A Confederação Ornitológica Mundial (COM) reconhece três raças de canário de canto. Cada uma tem o seu “jeito” de cantar:

Raça Origem Registro Timbre que predomina
Harzer Roller Alemanha Grave Oco
Malinois (Waterslager) Bélgica Médio Aquoso
Timbrado Espanhol Espanha Agudo, sem ser estridente Metálico

Por que “timbrado”?

O nome vem da voz timbrada: brilhante e metálica.

Não vem do giro chamado “Timbres”. O código espanhol deixa isso claro: há timbrados que nem cantam timbres.

E o aspecto dele?

Quem vê um Timbrado pela primeira vez pode estranhar: ele não tem um visual único. Nas fotos desta página dá para ver isso, com pássaros verde-oliva estriados, amarelos e amarelos de asa marrom. O que une todos é a voz.

Timbrado Espanhol de frente, em pé no poleiro, com anilha laranja na pata
Timbrado Espanhol de perfil, num poleiro de madeira, com anilha vermelha na pata
Timbrado Espanhol verde-oliva num poleiro, dentro da gaiola, com anilha azul na pata
Timbrado Espanhol amarelo e marrom agarrado às grades da gaiola
Dois canários amarelos num poleiro, o da frente com a cabeça marrom-esverdeada e anilha roxa na pata
Canário amarelo de perfil num poleiro de madeira, sobre fundo verde liso
  • A cor não é critério. Não existe padrão de cor para premiar um Timbrado, e a classe é definida pelo canto.
  • O que o aspecto pode custar: nos torneios da FOB, o fator vermelho e as penas frisadas desclassificam. São sinais de cruzamento com outras raças, e a história mostra por quê: a moda do canário vermelho e o cruzamento com frisados, para aumentar o porte, quase acabaram com o canário de canto espanhol.
  • Medidas e descrição física exatas estão no manual técnico da FOB (o Manual de Julgamento), que não é público. Por isso aqui não há números de tamanho.

Na dúvida, escute: um Timbrado se reconhece pelo canto, não pela aparência.

Como ele canta

  • Duas vozes: o canário não canta com a garganta como nós. O som sai da siringe, um órgão na base da traqueia com dois lados que funcionam de forma independente. Por isso ele consegue soltar dois sons ao mesmo tempo.
  • Agudo: no Timbrado, as sílabas chegam a 7 mil hertz quando ele usa os dois lados.
  • Sem estridência: o código espanhol desmente a fama de barulhento. Um bom Timbrado canta agudo, mas dá para tê-lo em casa e ouvir o canto com tranquilidade.
  • Fôlego: depois de cada sílaba, ele faz uma mini-respiração.

A história completa

1. O canário selvagem chega à Europa

O ancestral de todos os canários é o canário selvagem (Serinus canaria), das ilhas do Atlântico: Canárias, Madeira e Açores.

Canário selvagem cantando, empoleirado num galho seco
O canário selvagem (Serinus canaria), ancestral de todos os canários domésticos.
  • Século XIV: o canário sai das Ilhas Canárias e começa a se espalhar pela Europa.
  • 1402: o navegador francês Jean de Béthencourt leva canários selvagens à corte de Castela.
  • Século XV: o canário vira ave de luxo nas cortes europeias.

2. Os monges e o monopólio espanhol

Os primeiros a criar canários em cativeiro foram monges espanhóis. Eles vendiam só machos, para que ninguém mais conseguisse reproduzir, e guardaram esse monopólio por quase cem anos.

Por volta de 1550, aparecem as primeiras fêmeas fora da Espanha, na Itália. A partir daí, a criação se espalha.

Uma história famosa conta que um navio com canários naufragou perto da ilha de Elba e que os pássaros teriam se espalhado pela Itália. O código espanhol chama essa versão de “invenção novelesca”: não há base para ela.

3. Cada país escolhe o que selecionar

No século XVI, Flandres e a Espanha são os grandes centros de criação. Cada região passa a selecionar o canário por um motivo:

  • Alemanha, França, Países Baixos e Espanha: pelo canto;
  • Flandres: pela cor.

Dessa seleção pelo canto nascem, no século XIX, as outras duas raças de canto: o Roller, das montanhas do Harz, na Alemanha, e o Malinois (Waterslager), na Bélgica.

4. O “canário do país”

Na Espanha, criadores da Andaluzia, das Astúrias e da Catalunha selecionam um canário pelo canto: o chamado “canário do país”.

Os mais famosos eram os de Vich, na Catalunha, com um canto bem vocalizado, sem notas desagradáveis e com trechos que lembravam o rouxinol.

Ainda não era uma raça: faltava padrão, cada região tinha o seu tipo. Desse mesmo “canário do país” saíram também outras raças espanholas, como a Raça Espanhola, o Giboso Espanhol, o Melado Tinerfenho e o Larguillo.

5. Quase extinto

No início do século XX, até a Guerra Civil, quatro coisas quase acabaram com o canário de canto espanhol:

  1. cruzamentos com canários frisados importados, para deixar o pássaro maior;
  2. o sucesso do Roller alemão, que levou a cruzar os poucos “do país” que restavam;
  3. a Guerra Civil Espanhola (1936–1939);
  4. a moda do canário vermelho, de fator vermelho.

6. O resgate

Nos anos 1940, sócios da Associação de Canaricultores Espanhóis (A.C.E.), de Madri, decidem resgatar o canário de canto do país.

  • 1950: sai o primeiro código de canto, ainda baseado no do Roller.
  • 1954: a A.C.E. batiza a raça de Timbrado Espanhol.

Já nessa época existiam duas correntes, com linhas de canto diferentes:

  • uma nas Astúrias, que deu origem à linha da federação FOCDE: é o atual Clássico;
  • outra em Madri, em torno da A.C.E. e da F.O.E.: é o atual Original.

7. Recusado, depois reconhecido

  • 1956: em Barcelona, o reconhecimento internacional é negado. Os juízes acharam que era um Roller mal cruzado.
  • 1962: em Bruxelas, a pedido da A.C.E., a Confederação Ornitológica Mundial (COM) reconhece a raça, ao lado do Roller e do Malinois.

8. O Timbrado hoje

  • 2018: a FOCDE aprova o código de canto usado hoje, que revoga os anteriores.
  • 2021: no Brasil, a FOB separa o Timbrado em três linhas, cada uma com a sua ficha: Original, Floreado e Clássico.
  • 2022: a FOB forma os primeiros juízes de Timbrado do Brasil, em curso com um juiz espanhol.
  • 2023: a COM passa a chamar a antiga ficha “Original” de “Clássico (ex original)” e cria uma nova classe Original.
  • 2024: a FOB esclarece que, para competir no Clássico, o pássaro precisa cantar ao menos uma nota contínua.

As três linhas

Hoje o Timbrado Espanhol compete em três linhas: Original, Floreado e Clássico. Veja a diferença entre elas e o que é o Timbrado Espanhol Clássico, a linha que criamos aqui.

Para se aprofundar

Quer ir além? Estas são as fontes mais confiáveis sobre o Timbrado Espanhol. As oficiais vêm primeiro.

Oficiais (federações)

Para o dia a dia

  • O Manual de Julgamento de Canários de Canto, vendido pela FOB, traz a ficha oficial usada nos torneios brasileiros.
  • Clubes filiados à FOB e juízes da OBJO são o melhor caminho para ouvir bons pássaros e tirar dúvidas.

Com cuidado

  • Wikipédia em espanhol — Canario timbrado español: bom ponto de partida, mas o próprio artigo avisa que faltam referências.
  • Sites de criadores e vídeos ajudam a ouvir o canto, mas muitos repetem informações sem fonte. Na dúvida, confira no código da FOCDE.

Fontes

Ver no YouTube ↗